3 profissões tradicionais e o futuro pós-pandemia

Como será o futuro de 3 das profissões mais tradicionais no pós-pandemia? Veja as considerações a respeito.

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Quando os livros de história citavam a Gripe Espanhola, doença que matou mais de 50 milhões de pessoas no século XX, poucos imaginavam que uma nova ameaça global estava por acontecer. No entanto, o ano de 2020 ficará marcado para sempre pela pandemia de Covid-19, doença infecciosa causada pelo vírus SARS-Cov-2, que já contaminou mais de 26 de milhões de pessoas e paralisou todos os países do mundo.

Até o momento, o Brasil já registrou mais quatro milhões de casos e 125 mil mortes*. Aliado à situação política do País, a crise econômica causada pela pandemia está alcançando perigosos patamares. Em meados de maio, a consultoria Gavekal Research chegou a comparar o Brasil com um prédio em chamas, desencorajando investidores a apostar no mercado financeiro brasileiro. 

Já em 1º de setembro, o Produto Interno Brasileiro (PIB) registrou o segundo trimestre em queda (9,7% em comparação com o primeiro trimestre de 2020), colocando o País oficialmente em recessão. 

Como consequência dessa crise econômica, o mercado de trabalho precisou fechar milhares de postos. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), elaborado pelo Ministério da Economia, o acumulado de janeiro a julho de 2020 é de um milhão de desempregados. 

Entretanto, apesar da gravidade da economia brasileira, a crise sanitária ainda é uma das grandes preocupações. Afinal, para uma possível retomada, é preciso que a pandemia esteja controlada.

Enquanto isso não ocorre, algumas profissões precisaram se adaptar às necessidades do momento, seja duplicando a carga de trabalho ou se adequando às novas tecnologias para permitir com que a prestação de serviço continuasse apesar do distanciamento social. 

Veja as considerações de especialistas de três das carreiras mais tradicionais brasileiras que precisaram se transformar durante a pandemia e levarão essas mudanças para o “novo normal”. Confira:

Medicina: doação pela profissão & teleatendimento

No front da batalha contra a Covid-19, os profissionais da área da saúde são aqueles que estão lutando para a recuperação dos infectados pelo vírus. Assim como enfermeiros, fisioterapeutas e nutricionistas, médicos de todo o Brasil precisaram mudar totalmente a sua rotina para se adaptar à demanda dos hospitais. 

“Tem gente morando em hotel para não voltar para casa e não contaminar a família, por exemplo. Isso foi uma mudança muito drástica. Além de que, infelizmente, nós tivemos muitas mortes de médicos e outros profissionais da área da saúde que foram atingidos pela pandemia”, aponta Irene Abramovich, médica assistente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).

O chinês Li Wenliang foi o primeiro médico a identificar a existência do surto de coronavírus na província de Wuhan, na China, e também foi um dos primeiros da área a se tornar uma das vítimas fatais do vírus. No Brasil, até o início de julho, cerca de 787 mil profissionais da saúde tiveram que ser afastados por suspeita de contaminação, segundo o Ministério da Saúde.

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Teleatendimento na Medicina veio para ficar

Uma forma de facilitar o acesso ao atendimento médico, garantindo a segurança sanitária desses profissionais e de pacientes, foi o teleatendimento. Regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) em 2019, essa prática ocorria timidamente na comunidade médica, porém com a pandemia foi necessário implementá-la na rotina de trabalho. 

Para auxiliar os profissionais da área da saúde, estudantes do curso de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) estão participando de um projeto de extensão que oferece o teleatendimento gratuito para aqueles que possuem dúvidas sobre a Covid-19. 

“O Projeto surgiu numa conversa com o reitor da Ufal sobre como poderíamos contribuir com a sociedade na pandemia, além das pesquisas e iniciativas de apoio como produção de álcool e máscaras. Com a disponibilidade de 60 ramais, junto ao coordenador do curso de Medicina, professor David Duarte, planejamos o treinamento dos alunos e prestamos esse serviço para a população”. Até o momento, cerca de 25 mil ligações foram atendidas.

Para o professor de Coloproctologia, a telemedicina com teleconsultas, telediagnósticos e tele acompanhamentos será uma realidade crescente nos próximos anos, acompanhando a transformação digital que estamos vivendo.

A presidente do Cremesp também acredita que a telemedicina veio para ficar, porém a médica reforça que é preciso que novos protocolos sejam revisados e regulamentados após o fim da pandemia

“A relação médico-paciente não pode mudar. Se eu não olhar no olho do paciente, não examiná-lo ou não conversar com ele, não vou conseguir atendê-lo da melhor forma”, critica Irene Abramovich. 

Para que haja harmonia entre o atendimento presencial e virtual, professor Mário Jucá sugere um modelo de assistência à saúde híbrido, que seria um tipo de movimento semelhante ao que está ocorrendo na educação.

“A saúde caminhará em passos largos com o mundo online, caminharemos para consultas nacionais e internacionais, segunda opinião de forma rápida e segura, que diminuirão muitas barreiras. Ainda não garantir dizer como será, mas ficará bem melhor do que é hoje”, reflete

Ganhos para a profissão

Com a nova demanda de trabalho, os dois médicos entrevistados concordam que as duas características que esses profissionais desenvolveram nesse período foram o valor pela profissão e o cuidado com a proteção

“Médicos aprenderam a valorizar suas atividades e proteger-se, sem se furtar ao enfrentamento da pandemia. Os estudantes foram retirados da prática e assistiram as carências de apoio do sistema e sentiram também que são importantes dentro do sistema. Todos têm seus papéis e quando bem desempenhados a sociedade só tem a ganhar”, declara o professor da Ufal.

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Professores: home office com trabalho em dobro & adaptação a novas tecnologias

Há algumas semanas, a publicação da norte-americana Nyla Danae viralizou nas redes sociais. Nela, a garota pedia para que estudantes tivessem mais paciência com o pai que é professor e, aos 54 anos, está aprendendo como lidar com as novas tecnologias para oferecer a melhor aula possível dentro da realidade atual.

No Brasil, com o início da pandemia, as aulas foram interrompidas em todos os estados brasileiros. Dos 56 milhões de alunos matriculados no Ensino Básico e Superior, 19,5 milhões estavam com as aulas suspensas até agosto e 32,4 milhões tinham acesso ao ensino remoto emergencial. 

Para garantir que os estudantes continuassem tendo acesso às aulas mesmo durante a pandemia, muitas escolas e faculdades precisaram se adaptar para oferecer um sistema de aulas virtuais, assim como muitos professores precisaram, de uma hora para a outra, mudar toda a metodologia de ensino e lidar com tecnologias que não estavam presentes no seu dia a dia.

“Em função do decreto de quarentena, os professores foram abruptamente transferidos para o regime de teletrabalho ou home office. Essa mudança no regime de trabalho, de uma hora para outra provocou uma alteração radical do planejamento pedagógico, pois a atividade docente realizada de modo presencial é substancialmente diferente daquela exercida em ambiente virtual”, critica Celso Napolitano, professor e presidente da Federação dos Professores de São Paulo (Fepesp).

A situação é ainda mais grave na Educação Básica, em que o sistema de aulas a distância ainda não era uma realidade, visto que nessa etapa do aprendizado o acompanhamento pedagógico presencial é essencial para o desenvolvimento do aluno.

“Os cursos a distância já são uma realidade no ensino superior, mas na educação básica isso foi novidade para a maioria dos professores. Além disso, a dinâmica do ensino também mudou para os professores que não ensinam online em tempo real, ou seja, para aqueles que precisam gravar os vídeos com conteúdo”, explica Guilherme Hirata, especialista em educação e pesquisador da consultoria IDados.

Sem o contato diário, os professores precisam planejar e gravar as aulas prevendo todas as possíveis dúvidas e reações dos estudantes, algo que presencialmente é algo muito fácil de lidar.

Atualização da formação de professores

Guilherme relembra que, com a pandemia, ficou ainda mais expressivo a necessidade da atualização dos cursos de formação de professores. “De modo geral, a formação é excessivamente teórica. Não é coincidência que o desempenho dos alunos tenha avançado pouco nos últimos anos de acordo com a Prova Brasil, talvez com exceção dos anos iniciais”, analisa. 

Para o pesquisador, uma alternativa para melhorar o ensino no Brasil é recrutar os melhores estudantes do Ensino Médio para ingressar na carreira. Entretanto, para que isso ocorra ainda é preciso descobrir como fazer para encantar esses estudantes para o magistério. 

Napolitano também acredita que os professores precisam aprender durante a graduação a lidar com novas tecnologias para, quando necessário, possam garantir aulas virtuais de qualidade e sem desgaste pessoal. 

Home Office x Volta às aulas

Apesar da pandemia ainda estar longe de terminar, alguns estados estão começando a permitir o retorno das aulas presenciais, sendo em alguns casos por liminares judicais pedidas por escolas particulares. 

Em São Paulo, após o prefeito Bruno Covas proibir o retorno às aulas, o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (SIEEESP) entrou com uma ação judicial para garantir a retomada das aulas. De acordo com um levantamento da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, 120 dos 645 municípios abrirão as escolas a partir do dia 08 de setembro. 

Do outro lado, professores da rede pública estadual de ensino protestaram contra a volta das aulas presenciais. “Existem escolas inteiras precisando de reforma. Tem escola que não conta sequer com uma pia nos banheiros, e muito menos papel higiênico. Como falar em protocolo de segurança?”, reivindicou Professor Bebel, presidente da Sindicato do Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) em entrevista ao UOL.

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“Imediatamente, quando houver segurança para a volta às aulas sem risco à saúde, será preciso obedecer a protocolos de convivência relativos à higiene dos escolares e do local de estudo. Teremos um grande período de adaptação pela frente, tanto de práticas pedagógicas como de discussão de relações de trabalho”, reforça Carlos Napolitano.

Advocacia: uma era da nova para advogados e judiciário

O curso de Direito é um dos que mais recebe matrículas anualmente. Segundo o Censo da Educação Superior 2017, essa graduação corresponde 10,6% de todas os matriculados no Ensino Superior, ganhando de Pedagogia e Administração

Como reflexo, o Brasil é o terceiro país com o maior número de advogados no mundo: existe um advogado para cada 322 brasileiros. Além disso, em 2018, mais de 80 milhões de processos judiciais tramitavam no País. 

Porém, assim como todos os outros setores, o judiciário brasileiro paralisou durante um determinado momento da pandemia. “Imagine que em um ano com cerca de duzentos e cinquenta dias úteis a atividade deixar de ser exercida por sessenta ou setenta dias úteis, significa uma retração de um quarto nas suas atividades e proporcionalmente nos rendimentos profissionais”, explica Mario Luiz Ribeiro, presidente da Comissão de Exame da Ordem de São Paulo.

Entretanto, apesar de algumas áreas terem sido prejudicadas pela quarentena imposta pela pandemia, Mario Luiz aponta que alguns ramos do Direito tiveram um aumento significativo de suas demandas, tais como, Direito Digital, Direito Trabalhista e Direito Empresarial.

“Isso aconteceu por conta do número expressivo de novas situações que se apresentaram como, por exemplo, contratação de plataformas digitais, suspensões temporárias de contratos de trabalho, paralisação ou encerramento de atividades, incremento expressivo nos serviços de venda on-line e entrega, vez que as pessoas deixaram de circular”, indica.

Para Sergio Pereira Braga, coordenador do curso de Direito da Universidade São Judas Tadeu, o home office e o atendimento on-line permitiu com que os advogados pudessem utilizar o tempo de deslocamento para o escritório de forma mais produtiva

“Numa cidade como São Paulo, com problemas no transporte público e com vias constantemente congestionadas, a tecnologia é uma aliada na redução dos deslocamentos, na diminuição da poluição e na redução de despesas. Há estudos que indicam que a produtividade no Poder Judiciário, com o teletrabalho, audiências virtuais e o processo eletrônico, este último já antigo, aumentou em 30%”, destaca.

No caso das prestações de serviços que continuaram durante o período mais crítico do isolamento social, a indicação da OAB/SP foi para que os advogados seguissem as normas de segurança do Ministério da Saúde, além de propor palestras, debates e comissões técnicas para amparar seus associados.

Atendimento garantido, mas a distância

Com a pandemia, outra lição aprendida nessa área foi a possibilidade do atendimento a distância

“Em uma situação pré-pandemia, em algumas situações, seria inimaginável que um profissional se deslocasse 300, 400 quilômetros para fazer uma sustentação oral no tribunal, pois demandava, além de um ou dois dias de serviço, também o custo de deslocamento e estadia, que muitas vezes inviabilizava a execução de tal prestação”, relembra Mario Luiz Ribeiro. 

Porém, com as novas ferramentas à disposição e a possibilidade de participar de um julgamento transmitido on-line, essa situação se torna viável. 

Outra forma de se destacar nessa área, é por meio de uma relação de parceria com o cliente. Para o coordenador do curso de Direito da São Judas, isso significa buscar soluções sustentáveis e que façam toda as partes envolvidas satisfeitas. 

“O profissional jurídico precisa investir em relacionamentos e ter cuidado com sua imagem pessoal e do escritório que representa. A ética, deve ser uma constante na vida do profissional. Não há mais espaço para aquela figura do advogado esperto, que leva vantagem em tudo, que trapaceia para atingir seus objetivos. Será preciso ser mais humano”, resume o professor.

Conhecimento digital será primordial

O home office forçado permitiu com que diversos profissionais tivessem a oportunidade de experimentar e comprovar que é possível trabalhar fora do escritório mantendo a produtividade e qualidade do trabalho. 

Uma das ferramentas aliadas dessa possibilidade é a internet e será preciso que os advogados do futuro saibam lidar com esses instrumentos. “Os profissionais do Direito precisam não apenas conhecer as ferramentas tecnológicas e saber usá-las, mas principalmente estarem atentos para as mudanças que a revolução 4.0 impôs aos profissionais da área jurídica, antes mesmo da pandemia”, reforça Braga.

Para o presidente da OAB/SP, daqui para frente será preciso estar apto para oferecer um serviço on-line de acordo com a especificidade de cada cliente. Entretanto, ainda é preciso lembrar que a tecnologia é mais uma aliada da rotina de trabalho, mas o significado do direito permanece.

“É importante lembrar que direito continua sendo direito, liberdade continua sendo liberdade, igualdade continua sendo igualdade, justiça continua sendo justiça. A advocacia foi e continua sendo indispensável na administração da Justiça e na garantia da Democracia e o futuro da profissão permanece sendo importante como sempre foi, porém, a partir de agora, com outros ferramentas ao nosso favor”, finaliza.

Com informações do Quero Bolsa, parceiro do Castro Digital.

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Sobre o autor | Website

Blogueiro há 11 anos da área de Educação e Concursos, já publiquei mais de 5 mil notícias neste site; Jornalista Técnico (Registro Nº 1102-MA - Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Maranhão - SRTE-MA).

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