O conto do sonho de natal em Bacabal – por Louremar Fernandes*

Compartilhe esta postagem:

A gente vive o cotidiano tão imerso em nossos problemas e afazeres que deixamos de prestar atenção em detalhes tão significativos. Até as datas especiais quase nos pegam desprevenidos.

Assim eu me vi, pego de surpresa pela chegada do Natal.

Estava na rua Magalhães de Almeida. A cidade em ebulição. Gente pra todo lado. Um vai e vem frenético de um povo que deixou a compra dos presentes para a última hora. Dois pais de família que esperavam o semáforo abrir para atravessar a rua, conversavam. Pelo teor deu pra saber de cara que eram servidores municipais.

– Rapaz. Acabou aquele tempo ruim. Nem bem termina o mês, o homem já tá depositando nosso salário. O outro emendou:

– Esse prefeito sim, valeu nosso voto. Nem dá para acreditar que um dia elegemos prefeitos irresponsáveis que fazem pouco caso do funcionalismo. Tem cidade por aí que o prefeito se preocupa mais em comprar fazendas e reformar a casa nova, do que em pagar o povo.

A conversa tava animada, e eu ouvindo. O sinal, funcionando perfeitamente, ficou verde e nós atravessamos. Passei adiante dos dois e segui meu caminho para a rua Getúlio Vargas, a chamada Rua Grande.

Ali a zorra era grande. Os comércios, cheios de gente, eram o reflexo de uma cidade com uma economia forte, graças ao empenho das administrações municipais ao longo dos tempos. Todas as pessoas, todas mesmo, sorridentes.

E lá vou eu, caminhando e observando. Quando deparo com um grupinho de 5 pessoas na calçada do Banco da Amazônia. Conversavam sobre seus empregos. Dois trabalhavam numa fábrica de colchões, os demais me pareceu serem funcionários de uma grande rede de supermercados. Algo Assim. Aí me lembrei que realmente os nossos políticos adotaram essa prática de incentivar a instalação de indústrias na cidade. Isso vem desde a época em que João Alberto foi candidato a prefeito em 1988, prometeu gerar empregos na cidade, até a Parmalat viria se instalar aqui. Daí para cá, todos copiaram a mesma preocupação. Lisboa mesmo convocou até uma entrevista coletiva para anunciar a implantação de várias empresas. Que cabeça essa minha, como poderia ter esquecido?

Deixo o povo conversando e sigo para o calçadão. Na praça Silva Neto, uma bonita viatura do Departamento Municipal de Trânsito. Não é mais aquele fiatzinho caindo aos pedaços. É um carro personalizado. Os guardas todos satisfeitos, como não poderia deixar de ser, afinal os salários são pagos rigorosamente em dia certo.

De um outro carro vejo um jovem saindo com certa dificuldade. Parece ter sofrido um acidente. Curioso como sou, deu pra ouvi-lo conversando com sua mãe, a senhora que o amparava.

– Ah mãe, e pensar que quase morri naquele acidente terrível. Se não fosse termos um socorrão equipado, com médicos bem remunerados, eu estaria morto a uma hora dessas. O atendimento foi um espetáculo.

A mãe do rapaz, concordou:

– Graças a Deus meu filho. Já pensou se nosso prefeito fosse um irresponsável que so pensasse em comprar fazendas? Já pensou se ele não aplicasse bem o dinheiro que vem mensalmente para a saúde?

Ainda deu tempo pra ouvir o jovem sentenciar:

– É isso mesmo mãe. Se a nossa saúde não fosse de primeiro mundo como diz nos comerciais, teriam me atendido de cara feia, sem médico plantonista e ainda teriam me mandado pra Presidente Dutra ou São Luis, como fazem em muitas cidades do interior do maranhão.

Fico feliz. Nossa! Daqui a pouco será a noite de Natal. E o nosso povo tão feliz. Isso é gratificante. Apresso o passo, ando tranquilamente pelo calçadão, tudo limpinho, sem aquelas barracas desorganizadas dos camelôs. Agora eles têm um espaço próprio para faturarem o seu dinheiro. Mesmo assim quase sou atropelado. Dezenas de crianças, que tomavam sorvete bem próximo quase me derrubaram, naquela alegria própria dos inocentes.

No final do calçadão tem uma turma reunida. Próximo à sede da promotoria, eles estão comentando sobre a ação da Justiça. Diz um deles:

– Você lembra o tempo em que a gente não via ação alguma do Ministério Público? Eles concediam tanto prazo que o gestor municipal nem se preocupava mais em fazer a obrigação como administrador.

E outro da turma concorda:

– Ora se lembro. Agora a coisa é dura meu amigo. Prefeito nem sonha em atrasar salário, em fechar socorrão, em deixar o Hemomar sem funcionar. Já pensou, se fosse naquele tempo? O lixão ainda estaria a céu aberto lá pras bandas da Vila São João.

De repente interromperam a conversa. Saíram apressados para desejar Feliz Natal para um Promotor. E ninguém estranhou que tal autoridade estivesse na cidade, em plena véspera de feriado.

A noite cai e me aproximo daquele cenário lindo. É a praça Santa Teresinha. A praça da nossa igreja matriz. Capricharam na ornamentação. Está toda iluminada. Quando me aproximo vejo que até a imagem da santinha foi pintada bem recente. As pessoas estão tirando fotos para levarem de lembrança. Tem show com artistas da terra no local, uma cantata natalina. Tudo é harmonioso, até a gritaria das crianças que brincam no parquinho montado na praça.

A harmonia é quebrada por uma melodia de Osvaldo Montenegro, que é isso? Ah, é o toque do meu celular. Acordo chateado. Quem ousa interromper meu sonho, na noite de natal?

Era o amigo Zé Carlos, que morou por anos na rua da Areia e hoje vive em Brasília. Depois de receber seus votos de Feliz Natal, na atual circunstância, o corrijo: Só Bom Natal caro amigo. Feliz mesmo só no sonho que estava sonhando.
________________
Referência: Blog do *Louremar Fernandes.

RECOMENDE O SITE PARA SEUS AMIGOS NO FACEBOOK


CADASTRE SEU E-MAIL E RECEBA AS ATUALIZAÇÕES DO SITE

Compartilhe esta postagem:

Sobre o autor | Website

Blogueiro há 11 anos da área de Educação e Concursos, Jornalista Técnico (Registro Nº 1102-MA - Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Maranhão - SRTE-MA).

Para enviar seu comentário, preencha os campos abaixo:

Deixe uma resposta

*

Seja o primeiro a comentar!