Um viva à falsa abolição – Por Carmem Daiane Basso*

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Aproximadamente quatro séculos de trabalho escravo para enfim, ter a liberdade, liberdade esta prescrita em forma de lei, sancionada em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea.

Estamos em 2010, e neste ano comemoramos 122 anos da Lei Áurea que segundo a teoria, aboliu a escravidão no Brasil. Teoria porque tirou os negros das correntes visíveis e os acorrentou de uma forma talvez mais cruel que antes, porque faz acreditar que realmente são livres.

Os negros foram retirados de todos os cantos do continente africano, negros esses que construíram e trabalharam duro, muitas vezes pagando com a própria vida, para estruturar nosso país.

13 de maio de 1888, os escravos estavam livres! Livres do trabalho braçal forçado, livres das torturas, livres dos capitães do mato, livres do racismo, livres das humilhações. Suas mulheres, mães, filhas e irmãs estavam livres, livres de serem vendidas, torturadas, estupradas, livres de servirem as Senhoras do Engenho. Enfim, livres!

Podiam ir… Ir embora. Sem terra, sem casa, sem comida, sem roupas, sem as mínimas condições de sobrevivência. Simplesmente jogados à margem da sociedade. E viva a Lei Áurea! E viva a bondade! E viva a Hipocrisia!

Sim. Viva a hipocrisia! Pois até hoje percebemos os reflexos disso, vejam a cor das pessoas que estão à margem da nossa sociedade, vejam quais são as pessoas que mais sofrem pela falta de moradia, alimentação, saneamento básico, desnutrição, educação de qualidade. Percebam quais são as pessoas mais atingidas pelas “catástrofes naturais”. Essas pessoas tem cor, e por isso é necessário pensar, a abolição realmente aconteceu ou tomou novas formas? As senzalas foram extintas ou passaram a se chamar presídios?

Os negros ainda são torturados, espancados por policiais, pela falta de trabalho, pelo racismo, pela desigualdade gritante, pela falta de oportunidades. Os negros ainda fazem o trabalho braçal, ainda servem de mão de obra barata, ainda recebem apenas comida suficiente para se manter no trabalho, as condições de moradia são péssimas, muitas vezes construídas em cima de morros e lixões que nas primeiras chuvas desabam matando a maioria das pessoas e a isso dão o nome de “catástrofes naturais”, pois acredito que o nome correto seja “genocídio do povo negro”, e se da de uma forma tão sutil que poucas pessoas percebem.

Quanto ao sistema de cotas, ação afirmativa, medida paliativa que veio com o intuído de amenizar e tentar reparar os danos causados por vários anos de escravidão, pelo tratamento desigual e pela falta de oportunidades, mas na verdade, quais instituições disponibilizam essas vagas? Porque sobram tantas? Esta sendo feito realmente um trabalho de divulgação, as pessoas sabem que é um direito delas? Ou será que nosso sistema racista funciona mesmo perfeitamente e os faz acreditar que estudar pelo sistema de cotas é uma forma de racismo e incapacidade? Porque sobram tantas vagas nos cursos de medicina, odontologia e tantos outros?

Chega de hipocrisia, queremos a verdadeira abolição, queremos poder comemorar um dia, vida digna ao negro, moradia, saúde, educação de qualidade. Queremos ver mais negros na política, mais médicos negros, mais professores, dentistas, mais vida, mais liberdade, poder ao povo negro, poder!

Ninguém quer esmolas, queremos democracia racial, chega de viver o mito, queremos o pão repartido em partes iguais.

Realeza – PR, 13 de maio de 2010.
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*CARMEM DAIANE BASSO – Acadêmica de Serviço Social.

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Sobre o autor | Website

Blogueiro há 11 anos da área de Educação e Concursos, já publiquei mais de 5 mil notícias neste site; Jornalista Técnico (Registro Nº 1102-MA - Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Maranhão - SRTE-MA).

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1 Comentário

  1. Daniel Alencar disse:

    Parabens pelo texto, concordo plenamente…