Cidadania a porrete – Artigo por Liduina Tavares*

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Aprender no porrete o que significa ser cidadão, ratifica o uso do castigo físico como parte de um sistema de controle de uma sociedade investida do sentido da ordem e da lei. Afirmar que a cidadania brasileira se constituiu diferentemente das demais, a base do porrete, não é nenhuma hipérbole, é sim uma declaração de dor de homens e mulheres ao buscar seu direito de ter direito.

No Maranhão o instrumento de castigo não só marcava os corpos como os eliminava, na década de noventa, por exemplo, não bastasse a violência física, marcou também a dor emocional, pois impiedosos políticos, posseiros e juízes encomendaram e comandaram despejos, expulsões e prisões ilegais.

No conflito pelas terras a mão de ferro dos tiranos ceifou vidas como a de Zacarias Gomes da Silva, mártir em Imperatriz, José Machado, em Pio XII; em Codó, Abílio Diniz, em Bacabal, Raimundo Luziana e Manoel Tintino, e suas famílias escaparam por muito pouco, mas com força o suficiente para continuarem na luta em defesa dos direitos humanos fosse de seus familiares ou de outras famílias. Se para o ex-marinheiro, Adolfo Ferreira dos Santos, o Ferreirinha, sua cidadania veio a porrete, para o agricultor maranhense Ferreirinha, o porrete lhe tirou o direito da cidadania, lhe tirou a vida.

Neste século XXI, as empresas do agronegócio invadem o nosso território privatizando a terra e fazendo escravos que sentem tão forte quanto fora o uso do porrete, sentem a dor da falta de liberdade e, sobretudo, sentem as condições indignas a que estão submetidos nas fazendas. Da água fazem consórcio e também submetem os pobres a quase total falta desse bem precioso, em alguns lugares no estado a água abundante e potável já só é encontrada nas fazendas.

Se o porrete lhes serviu ou serve para “quebrar o gênio” é a discussão que levanto ao estudar a história sócio, política e cultural desse estado que, recentemente, pela brava luta de seu povo levou a júri popular o poder judiciário. Um poder submisso a ordem política de uma oligarquia cuja força está na violência simbólica de que o seu coronel é imbatível, infalível e invencível.

Mas o povo alerta aos desmandos dessa oligarquia e da sonegação dos direitos por esse poder em crise se levanta e não se deixa quebrantar e mostra sua força:

• ao realizar fóruns para debater exatamente ainda o uso do porrete que se faz notar nas transferências de servidor sem que este a solicite, na exoneração de cargos sem justa causa, no confisco de recursos públicos em nome de uma nova ordem política, na morte de dezenas de crianças por falta de UTI;

• ao resistir como o fazem as quebradeiras de coco babaçu ao criarem a sua cooperativa;

• ao incluir na ordem do dia o processo de politização do povo maranhense, através dos seminários realizados pela Cáritas Brasileira, Comissão de Justiça e Paz, entre outras entidades ou movimentos sociais.

O povo maranhense está vivendo o momento em que o porrete no exercício de sua função, também lhe serve como instrumento encorajador para externar sua indignação.
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IMAGEM - Liduina Tavares

*Liduina Tavares – professora da rede estadual de ensino do Maranhão, Pedagoga, especialista em Planejamento Educacional, ex-secretária de educação de Bacabal, membro da Rede de Defesa de Direitos da Cidadania, vereadora no 1º mandato.

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Sobre o autor | Website

Blogueiro há 11 anos da área de Educação e Concursos, Jornalista Técnico (Registro Nº 1102-MA - Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Maranhão - SRTE-MA).

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